31.1.1946 - 31.1.1951
O marechal Eurico Gaspar Dutra nasceu em Cuiabá, estado do Mato Grosso, em 18 de maio de 1883. Ingressou na Escola Militar, no Rio de Janeiro, participando, em 1904, do levante da Praia Vermelha, relacionado à Revolta da vacina. Após ser anistiado, retornou à Escola Militar em Realengo, no ano seguinte, e ingressou na Escola de Guerra, em Porto Alegre, em 1906. Formou-se no curso da Escola de Estado-Maior em 1922 e atuou, pouco depois, na repressão à revolução paulista de 1924. Defendeu o governo do presidente Washington Luís contra os revoltosos de 1930, mas, em 1932, combateu a Revolução Constitucionalista de São Paulo.
Designado comandante da 1ª Região Militar entre 1935 e 1936, destacou-se na reação ao movimento comunista de 1935, passando a ocupar o cargo de ministro da Guerra de 1936 a 1945. Como ministro, procurou modernizar o Exército, posicionando-se diante do conflito internacional entre o apoio aos Estados Unidos e à Alemanha. Com o fim da guerra, manifestou-se favoravelmente à redemocratização do país. Embora tenha sido um dos mais fiéis colaboradores de Getúlio Vargas e do Estado Novo, apoiou os oficiais que destituíram o presidente em outubro de 1945.
Candidatou-se à presidência da República pelo Partido Social Democrático (PSD) e foi eleito em 2 de dezembro de 1945, contando, na fase final da campanha, com o apoio de Vargas. Passou para a reserva dois dias antes da posse, em 31 de janeiro de 1946. Em 18 de setembro de 1946, foi promulgada a quinta Constituição brasileira, marcando o retorno do país ao regime democrático. No mesmo ano, o governo criou o Serviço Social da Indústria (Sesi), o Serviço Social do Comércio (Sesc) e o Estado-Maior Geral, posteriormente denominado Estado-Maior das Forças Armadas (Emfa). Ainda em 1946, Dutra decretou o fechamento dos cassinos e proibiu os jogos de azar no país.
No campo da política externa, o governo aproximou-se dos Estados Unidos no contexto do pós-guerra e do início da Guerra Fria. Em 1947, Oswaldo Aranha foi nomeado delegado do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse mesmo ano, o governo determinou a cassação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética. Também foi realizada, em Petrópolis, a Conferência Interamericana da Manutenção da Paz e Segurança do Continente, que contou com a presença do presidente norte-americano Harry Truman.
O alinhamento com os Estados Unidos expressou-se ainda na criação da Comissão Mista Brasil–Estados Unidos, conhecida como Missão Abbink, chefiada por John Abbink e pelo ministro Otávio Gouveia de Bulhões. A comissão tinha como finalidade identificar os principais problemas da economia brasileira e, como especial recomendação, o emprego de recursos externos no setor petrolífero.
No plano interno, o governo manteve a política de controle sobre os sindicatos. Em 1947, o Ministério do Trabalho interveio em diversas entidades sindicais, em continuidade à política de tutela estatal assegurada pelo decreto-lei n. 9.070, de março de 1946, que restringia o direito de greve. Paralelamente à repressão sindical e à contenção salarial, a política econômica passou por duas etapas distintas.
A primeira fase caracterizou-se pela adoção de medidas liberais, buscando reduzir formas anteriores de intervenção estatal na economia. Contudo, a ampliação das importações provocou rápido esgotamento das reservas de divisas do país. Em 1947, seguindo orientação do Fundo Monetário Internacional (FMI), o governo iniciou uma segunda etapa, marcada pela retomada do controle cambial e pela manutenção do cruzeiro valorizado em relação ao dólar.
Essa política desestimulou as exportações, mas favoreceu a importação de máquinas, equipamentos e insumos industriais, excluindo os bens de consumo. Como resultado, contribuiu para a expansão do setor industrial brasileiro. Nesse contexto, o governo formulou o plano SALTE — sigla para Saúde, Alimentação, Transporte e Energia —, apresentado em 1947. O plano buscava orientar os gastos públicos e concentrar investimentos em áreas consideradas essenciais. Entretanto, só passou a integrar o planejamento orçamentário em 1949, tendo sido abandonado em 1951.
Durante o governo Dutra, consolidou-se também o uso do cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) como indicador do crescimento econômico do país. No campo das obras públicas, tiveram início a construção da usina hidrelétrica de Paulo Afonso, na Bahia, e da rodovia Presidente Dutra, ligando o Rio de Janeiro a São Paulo. Em outubro de 1948, foi criada a Escola Superior de Guerra (ESG), com apoio norte-americano, reforçando a aproximação entre os dois países no contexto militar e estratégico.
Após deixar a presidência, Dutra manteve participação na vida política e apresentou-se como candidato nas eleições indiretas para presidente da República em 1965. Diante do apoio predominante nos meios militares ao general Castelo Branco, retirou sua candidatura. Afastado da vida pública, faleceu no Rio de Janeiro em 11 de junho de 1974.