7.9.1961 - 31.3.1964
Advogado, nasceu na cidade de São Borja, estado do Rio Grande do Sul, em 1º de março de 1918. Iniciou sua atividade política no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), tendo sido fundador desta agremiação em São Borja (1946) e presidente do diretório do Rio Grande do Sul (1950–1954). Elegeu-se deputado estadual (1946–1950) e deputado federal (1951), licenciando-se do mandato para assumir a Secretaria do Interior e Justiça do Rio Grande do Sul (1951–1952). Foi deputado federal pelo PTB-RS (1952–1953), ministro do Trabalho, Indústria e Comércio do governo de Getúlio Vargas (1953–1954) e presidente nacional do PTB (1952–1964). Candidatou-se ao Senado em 1954, mas não foi eleito. Foi vice-presidente da República no governo de Juscelino Kubitschek e, por força de dispositivo constitucional, presidente do Senado Federal (1956–1961). Em 1960, reelegeu-se vice-presidente, na chapa de oposição ao candidato udenista Jânio Quadros. Com a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, João Goulart, ou Jango, como era conhecido, foi empossado na presidência da República em 7 de setembro, após a aprovação, pelo Congresso, da emenda constitucional que instaurou o regime parlamentarista de governo. Em janeiro de 1963, com a realização do plebiscito que decidiu pela volta do presidencialismo, assumiu plenamente os poderes presidenciais.
João Goulart assumiu a presidência sob regime parlamentarista, tendo como primeiro-ministro Tancredo Neves. O primeiro gabinete foi formado em 8 de setembro de 1961 e reuniu representantes da maioria dos partidos políticos. Durante esse período, também foram organizados os gabinetes de Francisco de Paula Brochado da Rocha e Hermes Lima. Em 6 de janeiro de 1963, em plebiscito antecipado, 11,5 milhões dos 18 milhões de eleitores compareceram à votação, confirmando o presidencialismo por ampla maioria. Formou-se, então, um novo ministério.
No plano internacional, o governo manteve uma política externa independente diante da polarização da Guerra Fria. Em 23 de novembro de 1961, reatou relações diplomáticas com a URSS, rompidas no governo de Eurico Gaspar Dutra, manifestou-se contrário às sanções impostas a Cuba e recusou-se a apoiar a invasão da ilha proposta pelo presidente norte-americano John F. Kennedy. Ao mesmo tempo, criticou o regime cubano e atuou, a pedido dos Estados Unidos, como mediador junto a Havana durante a crise dos mísseis. Em dezembro de 1962, destacaram-se a criação do Grupo de Coordenação do Comércio com os Países Socialistas da Europa Oriental (Coleste) e medidas orientadas à consolidação da Zona de Livre Comércio da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc).
Ainda em dezembro de 1962, foi divulgado o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, elaborado por Celso Furtado e conduzido pelo ministro da Fazenda San Tiago Dantas. O plano buscava conter a inflação sem comprometer o crescimento econômico, prevendo também as chamadas reformas de base, dedicadas às mudanças nas estruturas agrária, bancária e fiscal. Durante o governo, a política econômica ficou marcada pelo conflito entre as propostas reformistas, as reivindicações salariais e as pressões por estabilização monetária. Ao mesmo tempo, o governo enfrentava pressões externas dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que condicionavam empréstimos à adoção de políticas restritivas.
Em 1963, San Tiago Dantas negociou em Washington um plano de ajuda financeira e a renegociação da dívida externa brasileira. O acordo resultou num empréstimo de 398 milhões de dólares, dos quais 84 milhões foram imediatamente liberados. Contudo, o agravamento da inflação evidenciou a crise do Plano Trienal e levou o governo a anunciar novas medidas de estabilização econômica. Em dezembro de 1963, Goulart aprovou a previdência social para trabalhadores rurais, o 13º salário para o funcionalismo público e a obrigatoriedade de empresas com mais de cem empregados oferecerem ensino gratuito. Também instituiu a escala móvel para reajuste salarial, revisou concessões minerais e ampliou o papel da Petrobras no setor petrolífero.
Em 1964, em meio ao agravamento das tensões sociais e políticas, precipitaram-se os acontecimentos que desencadearam o golpe militar. Em 13 de março, Goulart discursou no comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, diante de cerca de 150 mil pessoas, anunciando medidas reformistas, como a encampação de refinarias particulares de petróleo. Em resposta, realizou-se, em 19 de março, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada por setores conservadores contrários ao governo. No dia 25, ocorreu a Revolta dos Marinheiros, seguida da anistia concedida pelo presidente aos participantes, o que agravou a crise com os setores militares. Em 30 de março, Goulart participou de uma reunião de sargentos em defesa das reformas de base. No dia seguinte, tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho deslocaram-se de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro, iniciando o movimento militar que derrubou o governo. Sem condições de resistência efetiva, Goulart deixou o poder. O novo regime foi rapidamente reconhecido pelo presidente norte-americano Lyndon B. Johnson.
Após o golpe de 1964, João Goulart exilou-se no Uruguai, onde viveu inicialmente em Montevidéu e depois passou a administrar propriedades rurais na região da fronteira com o Brasil. Em 1966, participou da Frente Ampla, movimento político que defendia a redemocratização do país, mas, após o encerramento da iniciativa, afastou-se da militância e dedicou-se principalmente aos negócios agropecuários no Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil. Em 1973, mudou-se para Buenos Aires a convite do presidente argentino Juan Domingo Perón, permanecendo na capital argentina mesmo diante de resistências internas à sua presença. Em 1976, diante de ameaças à segurança de sua família, afastou-se da cidade e retomou negociações para voltar ao Brasil, sem sucesso. No mesmo ano, faleceu em sua fazenda na Argentina, sendo sepultado em São Borja.