15.3.1979 - 15.3.1985
Militar, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 15 de janeiro de 1918. Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre, na Escola Militar do Realengo, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e na Escola Superior de Guerra. Durante o governo de Jânio Quadros, integrou a Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Participou do movimento político-militar que originou o Golpe de 1964, tendo sido nomeado chefe da agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) no Rio de Janeiro (1964-1966). Foi comandante da Força Pública de São Paulo (1966-1967), do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas – Dragões da Independência (1967-1969) – e chefe do Estado-Maior do III Exército (1969). Chefe do Gabinete Militar do governo Médici (1969-1974), tornou-se ministro-chefe do SNI durante o governo Geisel (1974-1979), sendo promovido a general-de-exército em 1977. Por meio de eleição indireta, passou a exercer o cargo de presidente da República em 15 de março de 1979.
O general Figueiredo assumiu a presidência da República reafirmando o projeto de abertura política iniciado no governo anterior. Em agosto de 1979, foi aprovada a Lei de Anistia que, apesar das restrições, beneficiou cidadãos destituídos de seus empregos, presos políticos, parlamentares cassados desde 1964, permitindo a volta de exilados ao país. Foram também anistiados os responsáveis pelos excessos cometidos em nome do governo e da segurança nacional. Em novembro, foi aprovada pelo Congresso Nacional a nova Lei Orgânica dos Partidos que extinguia o bipartidarismo e permitia a formação de diversos partidos. Ainda em novembro, foi aprovado o projeto do governo que previa eleições diretas de governadores e extinguia a figura do senador eleito indiretamente.
Em 1980, verificaram-se reações ao processo de abertura do regime, quando grupos de direita foram responsabilizados por atentados a bomba a bancas de jornais que vendiam periódicos de esquerda. Em agosto do mesmo ano, cartas-bombas foram enviadas à Câmara Municipal do Rio de Janeiro e ao presidente da OAB, resultando na mutilação do funcionário José Ribamar, da Câmara, e na morte da secretária Lida Monteiro da Silva, da OAB. Em 1981, ocorreria o caso mais polêmico do governo Figueiredo, quando duas bombas explodiram no estacionamento do Riocentro, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, durante a realização de um show comemorativo do Dia do Trabalho. As únicas vítimas do atentado foram dois militares lotados no Codi do I Exército. O episódio teve ampla repercussão pública e o resultado do inquérito, inocentando os dois militares, seria colocado sob suspeição, e acarretaria uma grave crise no governo.
No que diz respeito à política econômica, registrou-se, durante o governo Figueiredo, o esgotamento do modelo econômico adotado pelos governos militares, agravado pela nova crise do petróleo, em 1979, e pela elevação dos juros no mercado internacional. Em 1979, o governo congelou as importações de petróleo e criou o Conselho Nacional de Energia. Intensificaram-se, nesse período, as atividades do Proálcool e estenderam-se os contratos de risco com empresas estrangeiras para a prospecção de petróleo em todo o território nacional. Em 1981, o aumento da dívida externa, que girava em torno de 61 bilhões de dólares, associado ao crescimento negativo do PIB e aos altos índices inflacionários geraram o fenômeno denominado pelos economistas como estagflação, ou seja, estagnação das atividades econômicas e produtivas aliada à inflação dos preços. Em 1982, foi criado o Finsocial, que destinava 0,5% da renda bruta de empresas públicas e privadas a programas considerados pelo governo como prioritários, atribuindo o gerenciamento desses recursos ao BNDE, que passaria a se chamar Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Paralelamente ao quadro de crise econômica, observou-se, desde 1978, a eclosão de movimentos grevistas de diversas categorias profissionais, destacando-se, em 1980, a paralisação dos metalúrgicos do ABC paulista, mantida por 41 dias, e que resultou em demissões, choques com as tropas da polícia e do Exército, intervenção em sindicatos e na prisão e enquadramento de líderes sindicais na Lei de Segurança Nacional (LSN). Em 1981, reuniu-se a primeira Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (Conclat) e, dois anos depois, foi criada a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Em relação à política externa, o governo Figueiredo manteve a orientação pragmática adotada por seu antecessor, privilegiando o estabelecimento de relações comerciais com países que propiciassem vantagens ao desenvolvimento nacional. Destacaram-se, no período, a reaproximação com a Argentina e a criação, em 1980, de uma comissão bilateral para analisar futuras ações de interesse para ambos os países. Em novembro de 1982, realizaram-se eleições diretas para o Congresso e os governos estaduais. A oposição obteve maioria na Câmara dos Deputados e o PDS, no Senado e nos governos estaduais. Em 1983, formou-se uma frente única que reuniu partidos e entidades de oposição numa campanha que tomou o país, reivindicando eleições diretas para a presidência da República, era a campanha das “Diretas já”. A emenda constitucional das diretas, de autoria do deputado peemedebista Dante de Oliveira, foi derrotada na Câmara em abril de 1984. Em janeiro de 1985, Tancredo Neves e José Sarney foram eleitos indiretamente pelo Colégio Eleitoral, respectivamente, presidente e vice-presidente da República, derrotando os candidatos governistas Paulo Maluf e Flávio Marcílio.
Após deixar a presidência em 1985, João Figueiredo afastou-se inicialmente da vida pública, vivendo entre Petrópolis e o Rio de Janeiro, mas voltou a se manifestar a partir de 1987, criticando propostas da Assembleia Constituinte, defendendo a possibilidade de intervenção das Forças Armadas e alertando contra o avanço das esquerdas e da reforma agrária radical. Embora aliados tenham tentado viabilizar uma candidatura sua à presidência em 1989 e, novamente, em 1994, Figueiredo recusou-se a disputar eleições, alegando desilusão com a política. Nos anos seguintes, envolveu-se em polêmicas, como acusações de ligação com práticas de tortura durante a ditadura e uma ação judicial de investigação de paternidade, ambas negadas por ele. Em entrevistas nos anos 1990, admitiu que o atentado do Riocentro fora realizado por militares e reconheceu a possibilidade de abusos e torturas cometidos por agentes do regime. Também participou de grupos conservadores ligados a militares da reserva e apoiou o impeachment de Fernando Collor em 1992. Com a saúde cada vez mais debilitada após uma cirurgia em 1995 que lhe causou quase cegueira, passou os últimos anos isolado no Rio de Janeiro, vindo a falecer em 24 de dezembro de 1999.