1.1.1995 - 1.1.1999 | 1.1.1999 - 1.1.2003
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo nascido no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1931, teve uma trajetória marcada pela atuação acadêmica e política. Após o golpe militar de 1964, exilou-se no Chile, onde integrou a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) da ONU e lecionou na Argentina, México e França. Retornou ao Brasil em 1968, assumindo a cátedra de ciência política na USP até ser aposentado compulsoriamente em 1969, por força do AI-5. Nesse mesmo ano, participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Publicou, entre outros trabalhos, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, sua tese de doutorado, e Dependência e desenvolvimento na América Latina, com o sociólogo chileno Enzo Faletto Ingressou na vida política em 1978, como suplente de senador pelo MDB, assumindo o cargo em 1983. Participou da fundação do PMDB e, posteriormente, do PSDB, em 1988, ao lado de lideranças como Franco Montoro e Mário Covas, tornando-se figura central do partido. Foi ministro das Relações Exteriores (1992-1993) e da Fazenda (1993-1994) no governo Itamar Franco, período em que liderou a implementação do Plano Real, que visava a estabilização da economia brasileira após décadas de inflação elevada.
Eleito presidente da República em 1994, com 54,3% dos votos, e reeleito em 1998, seu governo teve como principal desafio manter a estabilidade monetária e promover o crescimento econômico. Para isso, promoveu uma série de reformas estruturais, buscando adaptar o Estado brasileiro às novas condições da economia global. Entre as medidas propostas estavam as reformas administrativa e previdenciária, desregulamentação de mercados, flexibilização das relações de trabalho e o fim de monopólios estatais em setores estratégicos, como energia, siderurgia e telecomunicações.
O programa de privatizações constituiu um dos pilares de sua política econômica. Setores como telecomunicações e energia elétrica foram amplamente transferidos à iniciativa privada, e empresas estatais, como a Companhia Vale do Rio Doce, tiveram seu controle acionário vendido. Essas medidas foram alvo de críticas da oposição, que questionava tanto os valores envolvidos quanto o impacto estratégico dessas mudanças. Ainda assim, o governo defendeu as privatizações como essenciais para modernizar a economia, atrair investimentos e reduzir o peso do Estado.
No plano econômico, o Brasil enfrentou um cenário internacional adverso, marcado por crises como a do México (1994) e da Rússia (1998), que provocaram saída de capitais. Apesar disso, o país demonstrou relativa capacidade de absorver os impactos externos. A estabilização da inflação contribuiu para o aumento da renda média dos trabalhadores, mas a manutenção de altas taxas de juros, utilizada para defender a moeda, limitou o crescimento econômico e contribuiu para a elevação do desemprego no final da década de 1990.
Em 1997, foi aprovada a emenda constitucional que permitiu a reeleição para cargos do Executivo, possibilitando a continuidade de seu governo. Reeleito em 1998, iniciou o segundo mandato em 1999 sob novas condições econômicas. Logo no início, ocorreu a desvalorização do real e a adoção do regime de câmbio flutuante, o que favoreceu as exportações e contribuiu para ajustes na política econômica. O país também firmou acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), comprometendo-se com metas fiscais rigorosas. Nesse contexto, destacou-se, em 2000, a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabeleceu regras para o controle dos gastos públicos e maior transparência na gestão fiscal.
Apesar dos avanços, o período foi marcado por dificuldades, como a crise energética de 2001, que resultou em racionamento de eletricidade, e o aumento da desconfiança dos mercados em 2002, elevando o risco-país. Ao final do governo, o Brasil enfrentava inflação em alta e crescimento do desemprego.
Na área social, o governo ampliou e consolidou programas voltados à redução da pobreza e à inclusão social. Entre eles destacam-se o Bolsa-Escola, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), o Pronaf, voltado à agricultura familiar, e o Programa de Saúde da Família (PSF). Houve avanços na educação, com aumento da taxa de escolarização infantil, atingindo cerca de 97% das crianças, e na saúde, com políticas como a regulamentação dos medicamentos genéricos e programas de combate à AIDS, reconhecidos internacionalmente.
Entretanto, persistiram problemas estruturais, como a desigualdade de renda e a violência urbana. Dados do período indicam que o Brasil continuava entre os países com maior concentração de renda do mundo, apesar de melhorias em indicadores como renda média e acesso a serviços básicos. O analfabetismo, embora reduzido, ainda atingia parcela significativa da população.
Na política agrária, o governo promoveu medidas como o aumento de alíquotas sobre propriedades improdutivas e a ampliação de assentamentos, mas não conseguiu evitar a intensificação dos conflitos no campo. O período foi marcado por forte atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com ocupações e manifestações que evidenciaram a persistência das tensões agrárias.
No campo dos direitos humanos, o governo avançou no reconhecimento das violações ocorridas durante o regime militar, promovendo indenizações às famílias de desaparecidos políticos. Também fortaleceu a atuação do Banco Central no sistema financeiro, com medidas para evitar crises bancárias, como o Programa de Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer).
Na agenda internacional registraram-se a realização, no Rio de Janeiro, em 1999, da cúpula de chefes de Estado e de governo da União Europeia e da América Latina e, em setembro de 2001, em Brasília, a reunião, pela primeira vez, dos chefes de governo dos 12 países da América do Sul. No Brasil, a festa comemorativa dos 500 anos dos Descobrimentos Portugueses, em 22 de abril de 2000, teve lugar em Porto Seguro e foi marcada por protestos dos indígenas e dos sem-terra.
Ao final de seu mandato, em 2002, Fernando Henrique Cardoso conduziu a transição de governo após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. No mesmo ano, foi reconhecido pelas Nações Unidas como uma das principais lideranças mundiais no campo do desenvolvimento humano. Após deixar a presidência, fundou o Instituto Fernando Henrique Cardoso, dedicado à preservação de sua obra e à análise de temas políticos e sociais. Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras e manteve atuação em fóruns internacionais, como o Clube de Madri e a Comissão Global de Políticas sobre Drogas.