15.11.1902 - 15.11.1906
Advogado, jornalista (tendo colaborado com diversas publicações no Império e na República), Francisco de Paula Rodrigues Alves nasceu em Guaratinguetá, em 7 de julho de 1848, filho do português Domingos Rodrigues Alves e de Isabel Perpétua Alves. Foi para o Rio de Janeiro, em 1859, fazer o curso secundário no Colégio Pedro II, tendo sido aluno destacado e contemporâneo de Joaquim Nabuco. Retornou a São Paulo em 1865 para fazer o curso de Direito na Faculdade de São Paulo (1866-1870), onde foi novamente contemporâneo de Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Afonso Pena, entre outros. Casou-se em setembro de 1875 com a prima-irmã Ana Guilhermina de Oliveira Borges, neta do visconde de Guaratinguetá, Francisco de Assis e Oliveira Borges, influente político do partido Conservador, grande proprietário de terras e lavouras, de quem herdou parte do capital político na região do interior de São Paulo.
Depois de formado, atuou no Ministério Público como promotor em Guaratinguetá e em São Paulo. Iniciou a vida política no partido Conservador, sendo eleito para a Assembleia Provincial em 1878 e para a Assembleia Geral em 1885. Foi ainda presidente da província de São Paulo entre 1887 e 1888 e nesse último ano, recebeu da princesa Isabel o título de Conselheiro de Estado. Durante seu governo em São Paulo, lidou com várias revoltas escravas no interior, que recebiam apoio do movimento abolicionista. Como consequência da aceleração do fim da mão de obra escrava, Rodrigues Alves incentivou a introdução de cem mil imigrantes na província de São Paulo. Seu governo ainda ficou marcado por uma epidemia de varíola em Santos, que foi debelada graças às providências tomadas para vacinação, isolamento e tratamento dos doentes.
Após a proclamação da República, foi deputado da Assembleia Constituinte entre 1890 e 1891, tendo assinado a primeira Constituição republicana. Ocupou o cargo de ministro da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Morais, e teve como orientação tentar tirar o país da grande crise econômica iniciada pelo Encilhamento no governo de Deodoro da Fonseca. Foi ainda senador e, em 1900, novamente presidente do estado de São Paulo. Nesse segundo mandato, encontrou o estado em crise devido à superprodução do café e à baixa dos preços causadas pelo excesso de oferta no mercado internacional. Manteve a política de imigração para o estado para suprir a necessidade crescente de mão de obra nas fazendas cafeeiras. Enfrentou uma epidemia de febre amarela no interior e casos de peste bubônica, iniciados em Santos e que vinham atingindo o restante do estado. Em 1901, organizou o Instituto Serumtherapico (atual Instituto Butantã), a partir de um laboratório criado em 1899, para criação e produção de soro contra a peste bubônica. Apoiado por Campos Sales, o nome de Rodrigues Alves, ex-monarquista, foi sugerido para concorrer à presidência da República e foi eleito em março de 1902. Seu vice, Silviano Brandão, faleceu antes da posse e foi substituído pelo mineiro Afonso Pena.
Na presidência, Rodrigues Alves fez um governo de firme gestão financeira para manter a estabilidade deixada por Campos Sales no mandato anterior, mas, empreendeu muitas reformas, além da expansão da rede ferroviária nacional. Foi responsável por grandes obras públicas no Rio de Janeiro, com o intuito de modernizar, embelezar e sanear a capital. A cidade sofria com epidemias recorrentes de febre amarela, varíola, dentre outras doenças contagiosas, devido, conforme o discurso da época, à falta de saneamento e de circulação do ar. Um dos principais colaboradores de Rodrigues Alves foi o engenheiro e prefeito da capital, Francisco Pereira Passos. Promoveu a reforma do porto e da zona portuária, a abertura da avenida Central (atual Rio Branco), a construção do Canal do Mangue e da avenida do Cais (atual Rodrigues Alves). Para que essas obras ocorressem, em nome da saúde pública, empreendeu a derrubada de boa parte das casas e construções históricas que compunham o estreito e apertado centro da cidade, juntamente com os cortiços e casas de cômodos, que abrigavam a população mais pobre da cidade, o que ficou conhecido como “bota-abaixo”. Essa população pobre, que habitava as “cabeças de porco”, como eram chamados os cortiços naquela época, viu-se despejada aos milhares, e foi ocupar as periferias, os subúrbios e os morros nas áreas centrais da cidade, dando início às favelas. Apesar do período de turbulência com a resistência da população pobre, as obras foram realizadas e a cidade ressurgiu com arquitetura renovada, à moda da Europa (especialmente de Paris, cidade que serviu de exemplo para o Rio de Janeiro, com a remodelação empreendida pelo prefeito, barão Haussmann), com redes de esgoto e abastecimento de água instaladas, avenidas largas, bondes e iluminação pública elétrica, substituindo os antigos lampiões a gás. A cidade perdia seu caráter colonial-imperial e tornava-se nova, aliada à jovem República brasileira, que juntamente com as construções, também buscava apagar o passado colonial da capital. A modernização da cidade compreendeu ainda a regulamentação de novas posturas públicas, como a proibição do comércio ambulante, da venda de bilhetes de loterias nas ruas e nos bondes, dos fogos de artifício, dos balões e das fogueiras.
A gestão de Rodrigues Alves ficou marcada também pela Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, que tomou grandes proporções ao se misturarem as razões do conflito e a grande insatisfação da população mais pobre com o governo que promoveu o bota-abaixo e o desalojamento de boa parte dos pobres que viviam na região central da cidade. O estopim da revolta foi a determinação do médico e sanitarista Oswaldo Cruz, que até então dirigia o Instituto Manguinhos, nomeado diretor-geral de Saúde Pública, de que a vacina da febre amarela fosse obrigatória, com os agentes entrando à força nas casas, especialmente, dos mais pobres, para vacinar os habitantes. A célebre revolta, embora rápida, foi debelada com dificuldade pelo governo. Rodrigues Alves ainda enfrentou a primeira greve geral na capital da República, em 15 de agosto de 1903, iniciada pelos operários da indústria têxtil que reivindicavam aumento de salários e jornada diária de oito horas para todas as categorias de trabalhadores.
Do ponto de vista econômico, o governo Rodrigues Alves pôs em prática a política de valorização do café, que previa a compra de parte da produção excedente pelo governo federal para regular a oferta e os preços no mercado internacional. No último ano de governo, apesar da oposição de Rodrigues Alves, foi concluído o Convênio de Taubaté, com o apoio do Congresso Nacional. Assinado pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o convênio instituiu a estabilização cambial e a proteção aos cafeicultores, cabendo ao governo central comprar as safras com recursos externos e estocá-las para vendê-las no momento oportuno, mesmo que isso significasse risco de prejuízo para o governo federal, em vista da recorrência das crises de superprodução. Uma conquista importante da diplomacia do governo de Rodrigues Alves, encabeçada pelo barão do Rio Branco, foi a questão do Acre – território de disputa de fronteiras entre Brasil e Bolívia. O território acabou sendo comprado pelo Brasil, e o acordo, que previa também a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, foi selado com a assinatura pelas partes do tratado de Petrópolis.
Terminado o mandato em 1906, e não tendo conseguido eleger seu sucessor, Rodrigues Alves foi novamente eleito presidente do estado de São Paulo entre 1912 e 1916 e voltou a ocupar uma cadeira no Senado antes de ser reeleito presidente do Brasil em 1918. Muito doente, não assumiu o cargo. Faleceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1919.