15.11.1894 - 15.11.1898
Advogado, Prudente José de Morais Barros nasceu nas redondezas da vila de Itu (São Paulo) em 4 de outubro de 1841, filho do tropeiro José Marcelino de Barros (assassinado quando Prudente tinha entre 2 e 3 anos de idade) e de Catarina Maria de Morais, que se casou novamente com o major Caetano José Gomes Carneiro e mudou-se com a família para a cidade de Piracicaba. Prudente foi para São Paulo para cursar o ensino secundário e ingressou na Faculdade de Direito em 1859, onde teve contato e aderiu ao republicanismo, liberalismo e abolicionismo, embora tenha sido favorável a uma abolição lenta para não comprometer os interesses dos grandes senhores de terras e escravizados, sobretudo os setores cafeeiros paulistas. Outra causa que defendia era a introdução de imigrantes estrangeiros para resolver o problema da mão de obra na agricultura, com a abolição da escravidão. Formado em 1863, regressou a Piracicaba, antiga Vila Nova da Constituição, onde abriu um escritório de advocacia. Filiou-se ao partido liberal e ingressou na política: foi eleito vereador (1865-1868) e escolhido presidente da câmara municipal. Em 1866 casou-se com Adelaide Benvinda da Silva Gordo. No ano seguinte foi eleito deputado provincial por São Paulo.
Em 1870, foi lançado o manifesto republicano no Rio de Janeiro, dois anos depois, foi fundado o partido republicano em São Paulo. Prudente de Morais proferiu diversas conferências na província paulista para difundir os ideais republicanos. Abordava a questão da escravidão, da imigração, do federalismo e da descentralização do poder. Em 1878 foi eleito deputado provincial novamente por São Paulo, desta vez pelo partido republicano. Foi reeleito em 1881, 1883, 1885 e 1887. Foi eleito para a Assembleia Geral em 1884 também pelo partido republicano. Destacou-se nas legislaturas, especialmente por pautas abolicionistas e de imigração europeia como substituta da mão de obra escravizada, além da defesa da adoção da República por vias moderadas.
Com a proclamação da República, Prudente de Morais foi nomeado governador de São Paulo, cargo que exerceu entre 1889 e 1890. Em seu governo houve grande entrada de imigrantes italianos no estado. Defendeu o ensino primário universal, gratuito e laico. Reformou a Escola Normal de São Paulo, que passou a se chamar Escola Normal Caetano de Campos.
O marechal Deodoro, presidente do governo provisório, convocou eleições para a Assembleia Constituinte; Prudente elegeu-se senador pelo Partido Republicano Paulista (PRP) e, tão logo os trabalhos começaram, foi eleito presidente da Assembleia que conduziu os trabalhos de elaboração da primeira constituição republicana do Brasil. Na eleição indireta para presidente e vice, em 1891, Prudente de Morais candidatou-se à presidência, mas o marechal Deodoro foi eleito.
Aproximando-se o fim do governo de Floriano Peixoto, foram realizadas as primeiras eleições diretas para presidente e vice-presidente da República. Prudente de Morais foi o primeiro presidente eleito diretamente pelo PRP, com apoio do PRF (Partido Republicano Federal), e o primeiro civil a ocupar o cargo.
O início do governo foi marcado por revoltas – os partidários de Floriano Peixoto, que queriam a permanência desse na presidência, conspiravam para seu retorno; a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, iniciada no governo anterior, só foi encerrada no primeiro ano do governo de Prudente de Morais, depois de muita negociação e anistia para os envolvidos; ainda havia a oposição encabeçada pelo vice-presidente, Manuel Vitorino, que conspirava para tomar o poder. Em novembro de 1896, Prudente de Morais licenciou-se da presidência para tratamento de saúde; nesse ínterim, o vice-presidente, florianista, substituiu ministros e considerava o afastamento do presidente já definitivo. Restabelecido, Prudente retornou ao cargo em março de 1897.
Em 1896-1897 teve início no interior da Bahia a Guerra de Canudos. O movimento de caráter messiânico e popular, liderado pelo “profeta” peregrino Antônio Conselheiro, reuniu milhares de pessoas (aproximadamente 25 mil) vivendo no arraial de Canudos, sertão baiano. Em 1893, Antônio Conselheiro e seus seguidores se fixaram em Canudos, aos pés do morro da Favela, às margens do rio Vaza-Barris, em uma fazenda abandonada. Ali foi criado o arraial do Belo Monte, reunindo sertanejos, peregrinos, andarilhos, jagunços, ex-escravizados, vítimas da seca e gente pobre e desvalida da região Norte-Nordeste do Brasil. Em vista do tamanho do movimento, a República passou a ver o Conselheiro e seus seguidores como uma ameaça à ordem constituída. As primeiras investidas contra o arraial foram rechaçadas duramente pelos sertanejos e causaram embaraço ao governo de Prudente de Morais. A terceira expedição, chefiada pelo controverso coronel Moreira César, mais bem equipada, munida e em maior escala de soldados, também foi um desastre, devido à resistência da população do arraial, aliada às dificuldades do clima e à geografia da região, negligenciadas pelas lideranças do Exército. Começou uma série de rumores, não fundamentados, de que o movimento de Antônio Conselheiro estava ligado à restauração da monarquia. A repressão ao movimento tornara-se urgente e deveria ser exemplar. A quarta expedição, em outubro de 1897, foi bem-sucedida para o governo: o arraial foi arrasado e incendiado, a quase totalidade de seus habitantes foi dizimada, com um saldo de mais de 20 mil mortos. A vitória na Guerra de Canudos consolidou o regime republicano em definitivo.
Ainda em 1897, houve um atentado contra a vida de Prudente de Morais pelos florianistas. O presidente saiu ileso do episódio, mas o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt foi atingido no lugar de Prudente e morreu. O governo de Prudente de Morais saiu fortalecido do episódio.
Do ponto de vista financeiro, o governo enfrentava dificuldades ainda em decorrência da desastrosa política do Encilhamento de Deodoro da Fonseca. Durante seu governo, ocorreu a primeira crise de superprodução de café, que baixou os preços do produto nos mercados nacional e internacional.
Durante o governo de Prudente de Morais foram restabelecidas as relações diplomáticas com Portugal, rompidas pelo antecessor, Floriano Peixoto, durante a revolta da Armada. Uma questão de limites também foi resolvida com a Argentina, arbitrada pelos Estados Unidos em favor do Brasil. Mediada pelo barão do Rio Branco, envolvia, em disputa, partes do Paraná e de Santa Catarina. Durante o governo de Prudente de Morais, ainda foi assinado o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com o Japão com o objetivo de trazer imigrantes desta nação para o Brasil (processo que se iniciou somente em 1908).
O governo de Prudente de Morais representou o período de consolidação do regime republicano, a transição dos governos militares para os governos civis, e representou a ascensão da oligarquia cafeeira paulista ao poder. O sucessor de Prudente foi o também paulista e republicano histórico Manuel Ferraz de Campos Sales. Terminado o mandato, Prudente de Morais retornou a Piracicaba e acompanhou a política sem ter ocupado novos cargos eletivos. Faleceu nessa mesma cidade em 3 de dezembro de 1902.